SE O OUTRO É NÃO É CULPAVÉL, NÃO PODERÁ SER PERDOADO? Até onde vamos pela reconciliação humana ou pela epifania perfeita?

A ELEIÇÃO DE SEMPRE: DESTRUIR OU PERDOAR? ATACAR OU CONSTRUIR? PROJETAR OU SANAR?

A necessidade de demonizar o outro para poder reconciliar-nos, conduze-nos ao perdão, que é uma parte importante do jogo da compreensão. No entanto, a necessidade de nos vergarmos perante o outro rumo à liberdade, conduze-nos ao ódio e ao jogo da destruição.

Em quase todas as mentes humanas permanece o pensamento de que são os fatores externos que criaram o mal-estar interno. No exterior mais próximo, estão os pais, a mulher, o homem com quem vives, os filhos, a família, os amigos, companheiros de trabalho, a profissão (professores, sócios, políticos…) ou motivos religiosos do pais onde vives. Todos estão de olho na mira telescópica e, em qualquer momento pode-se começar a disparar a matar. A isso chamámos “projeção” e quando acompanhada de premeditação é denominado de “epifania”.

A ira acumulada durante décadas, não tem limites, o corpo não pode armazenar tanta impotência, por isso, transforma-a em emoções. No entanto, estas não se libertam à medida do que seria necessário e portanto, quando não libertadas, são reprimidas e acumuladas. Ainda que se façam terapias de catarse, a produção interna de pensamentos nocivos e destrutivos contínua, criando mais tristeza, raiva, amargura, ressentimento, ódio… dirigidos ao exterior e a todos que estão ao seu alcance. Estas emoções destrutivas convertem-se em sentimentos profundamente sombrios e aniquiladores. A energia do ressentimento refina-se e une-se à necessidade de manifestar-se. Aqui surge a epifania. Quando toda essa energia é manifestada, sucede a tragédia, implacável e imparável.

Os que podem, compete-lhes compreender. Perante tanta energia de ódio social, o corpo não sabe o que fazer. Desta forma, vai aguentando até adormecer ou transforma em energia subatómica toda essa impotência, guardando-a em lugares quase inacessíveis combinados com memórias que perdurarão até à morte da pessoa. No entanto, quando podemos aceder a estes lugares, é necessário faze-lo com extraordinárias medidas de segurança, com uma precisão implacável, fazendo uso de ferramentas muito sofisticadas. É um trabalho extremamente delicado.

Quando estive na prisão com vários companheiros, um deles quase me matou quando o confrontei consigo mesmo para que reconhecesse o núcleo de ódio que tinha e que o levavam a matar e a destruir. Ele estava a chorar com uma infinita impotência. Foi um momento mágico para mim, porque o levei ao outro lado da tristeza. Levei-o onde estava toda a ira para que, desta forma, pudesse ver onde se alojava toda a energia que dominava a sua vida. Neste momento, agarrando-me pelo pescoço, encostou-me à parede, as minhas pernas falhavam, estava diante de alguém possuído pela raiva. Olhei-o nos olhos, nada mais e soltou-me.

Com estas experiências perigosas, compreendi o quão delicado é o núcleo da ira humana. Este homem iniciou um programa de reabilitação do módulo de respeito na prisão. Tudo isto serviu-me para compreender que se não se acede aí, não se poderá sanar nada desde raiz. Portanto, decidi conscientemente criar uma tecnologia que me permitisse aceder às áreas internas de alto conteúdo atómico-emocional. Esta tecnologia é falada e estudada na la Escola Consciente.  Uma das suas ferramentas é a Ayahuasca, a outra é a Não-Terapia, e existem outras mais…

No quotidiano, a cada semana, e as vezes, diariamente posso observar que me rodeiam pessoas cujo núcleo está repleto de ira e impotência. Observo com sofrimento, como estão estancados, como perdem tempo e não avançam, como saboteam. Sempre que me é permitido, intervenho para que possam aceder eles mesmos, com o bisturi da consciência a esse lugar interno, desde o qual poderão perdoar.

Dado que sou eu quem acompanha a pessoa ao sítio mais escuro e tenebroso do seu interior, é comigo que as pessoas se chateiam. Acreditam que fui eu que criei aquele sentimento horroroso que na verdade, encontraram dentro de elas. Eu apenas utilizo a minha experiência e astúcia, a minha capacidade de entrar, apesar do medo, para leva-los passo a passo, ao centro do conflito. Quando aqui chegamos, abre-se a possibilidade de a consciência clarificar a situação e ofereça luz para compreender. É simplesmente mágico mas de alto risco. Muitos, ou quase todos, atacam-me, difamam-me, são pessoas que não puderam assumir a situação que lhes ofereço para sanar. Esta situação cria-se, às vezes, simplesmente, pelo que digo, faço ou mostro. Este artigo pode ser uma dessas situações que permitem a entrada nesse lugar impenetrável de escuridão. É um método, nada mais.

Ainda que pareça uma loucura, tudo isto que nos sucede é um jogo de consciência. Para podermos reconciliar o interno com o externo, criam-se situações de hostilidade, agressividade no exterior para produzir culpa. Em alguns casos, a culpa advém da necessidade de culpar ou condenar, já que é esta a estratégia criada pela consciência para que se abra a possibilidade de reconciliação.

É uma loucura sanadora. São poucos os que a atravessam e os poucos que se atrevem sem ajuda profissional, tornam-se loucos, acabando em psiquiatras. A maioria adquire uma loucura criada à medida, integrados socialmente mas aderem à loucura destrutiva. Esta loucura dissimulada não te leva ao psiquiatra, mas sim a um bunker desde onde se executa a epifania perfeita. Este é o mecanismo utilizado pelos maiores assassinos da história humana, aqueles que organizam internamente a estratégia da vingança. Estes justificam todos os seus atos desde a loucura que eles mesmos criaram para atacar e destruir, isolam-se dos seus verdadeiros sentimentos para poder matar ou mesmo, suicidarem-se. A epifania é uma MANIFESTAÇÃO consistente, evidente e perfeita porque é planeada meticulosamente. Estas são estratégias típicas de mentes criminais que não souberam ou não puderam criar um caminho até ao perdão ou à reconciliação.

Os mais experientes em criminologia, que analisam os casos mais complexos de assassinos em série, quando iniciam uma investigação, primeiramente investigam o passado do criminoso. Por exemplo, aquele que matou 10 mulheres, em 9 meses, viu a sua mãe prostituir-se quando era pequeno; foi abandonado, abusado e uma larga lista de episódios que dão origem a uma mente criminal e uma epifania pronta a ser executada na perfeição.

A epifania do perdão é algo tão mágico e sanador que tem a capacidade de sanar qualquer pessoa do mundo, independentemente do seu passado e dos seus feitos. Esta é a manifestação consistente e evidente de que ocorreu uma reconciliação. Em vez de matar em série, dedicar-se-á a sanar em série e a sério.

TU ESCOLHES O QUE QUERES MANIFESTAR

Alberto José Varela

Comecei a escrever este artigo no dia 6 de janeiro de 2016, ao qual os católicos chamam de dia da Epifania. Hoje,10 de janeiro, terminei a primeira parte.

AMANHÃ CONTINÚO.

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